Você certamente já deve ter ouvido alguém falar da autora Cassandra Clare. Sim, a escritora da saga "Instrumentos Mortais". Agora que você provavelmente já deve ter lembrado dela, finalmente vamos começar a falar da notícia que está por vir.
Clare terá o terceiro livro de sua nova série - intitulada "As Peças Infernais" -, chamado "Princesa Mecânica", lançado amanhã (22). Porém, antecipadamente, a editora Galera Record pulicou o prólogo do novo livro. Você pode lê-lo logo abaixo:
"York, 1847
— Estou com medo — disse a garotinha sentada na cama. — Vovô, pode
ficar comigo?
Aloysius Starkweather emitiu um ruído impaciente do fundo da garganta ao aproximar a cadeira da cama e se sentar. O som impaciente
era sério apenas em parte. Na verdade, o fato de sua neta confiar tanto
nele, a ponto de por vezes ser o único capaz de acalmá-la, agradava-o.
Sua postura rude jamais a incomodou, apesar da natureza delicada da
menina.
— Não há o que temer, Adele — disse. — Você vai ver.
Ela olhou para ele com olhos arregalados. Normalmente a cerimônia
da primeira Marca seria realizada em um dos espaços mais grandiosos do
Instituto de York, mas por causa dos nervos e da saúde frágeis de Adele,
ficou acordado que poderia ocorrer na segurança de seu quarto. Ela estava sentada na beira da cama, com as costas muito esticadas. O vestido
cerimonial era vermelho, e uma fita da mesma cor prendia seus cabelos
claros e finos. Seus olhos eram enormes para o rosto delgado, e os braços,
magros. Tudo nela era tão frágil quanto uma xícara de porcelana.
— O que os Irmãos do Silêncio vão fazer comigo? — perguntou.
— Dê-me o braço — pediu o avô, e ela estendeu o braço direito, confiando plenamente nele. Ele o virou, observando os traços azul-claros das
veias sob a pele. — Vão utilizar estelas, você sabe o que é uma estela, para
Marcá-la. Normalmente começam com o símbolo da Clarividência, do
qual você se lembrará pelos seus estudos, mas, no seu caso, começarão
pelo da Força.
— Porque não sou muito forte.
— Para fortalecer sua constituição.
— Como caldo de carne. — Adele franziu o nariz.
Ele riu.
— Com sorte, não tão desagradável. Você vai sentir uma leve picada e
precisa ser corajosa e não gritar, pois os Caçadores de Sombras não choram de dor. Aí a dor passa, e você se sentirá muito mais forte e melhor.
Então será o fim da cerimônia, desceremos, e haverá bolos com coberturas
para comemorarmos.
Adele balançou os pés.
— E uma festa!
— Sim, uma festa. E presentes. — Ele bateu no próprio bolso, no qual
trazia uma caixinha escondida; embrulhada em fino papel azul e detentora de um anel de família muito pequeno. — Tenho um bem aqui. Vai
recebê-lo assim que a cerimônia de Marcação terminar.
— Nunca tive uma festa antes.
— É porque está se tornando uma Caçadora de Sombras — explicou
Aloysius. — Sabe por que isso é importante, não sabe? Suas primeiras Marcas significam que você é Nephilim, como eu, sua mãe e seu pai. Simbolizam que faz parte da Clave. Parte da sua família guerreira. Algo diferente e
melhor do que todos os outros.
— Melhor do que todos os outros — repetiu a menina lentamente,
quando a porta do quarto se abriu e dois Irmãos do Silêncio entraram.
Aloysius viu uma faísca de medo nos olhos de Adele. Ela puxou o braço
que o avô segurava. Ele franziu a testa; não gostava de enxergar medo em
sua neta, apesar de não poder negar que os Irmãos fossem assustadores
com seu silêncio e os peculiares movimentos deslizantes. Eles foram até o
lado de Adele, então a porta tornou a abrir, e os pais da menina entraram:
o pai, filho de Aloysius, com uniforme de combate em tom escarlate; a
mulher usando um vestido vermelho em formato de sino a partir da cintura e um colar de ouro no qual havia um símbolo enkeli. Sorriram para a
filha, que retribuiu tremulamente, mesmo enquanto os Irmãos do Silêncio
a cercavam.
Adele Lucinda Starkweather. Era a voz do primeiro Irmão do Silêncio,
o Irmão Cimon. Chegou à idade. É hora de receber suas primeiras Marcas
do Anjo. Tem ciência da honra que lhe está sendo concedida, e fará tudo que
estiver ao seu alcance para corresponder?
Adele assentiu, obediente.
— Sim.
E aceita estas Marcas do Anjo, que permanecerão eternamente em seu
corpo como um lembrete do que você deve ao Anjo e do seu dever sagrado
com o mundo?
Ela balançou a cabeça afirmativamente mais uma vez, obediente. O
coração de Aloysius inflou com orgulho.
— Aceito — respondeu.
Então comecemos. Uma estela brilhou e surgiu, sustentada pela longa
mão branca do Irmão do Silêncio. Ele pegou o braço trêmulo de Adele,
tocou a ponta da estela em sua pele e começou a desenhar.
Linhas negras serpenteavam da ponta da estela, e Adele assistia mara-
vilhada enquanto o símbolo da Força tomava forma na pele pálida da parte
interna do braço; um desenho delicado de linhas que se intercediam, cruzando as veias, envolvendo seu braço. O corpo estava tenso, e os pequenos
dentes penetravam no lábio superior. Seus olhos brilharam para Aloysius,
no alto, e ele encarou o que enxergou ali.
Dor. Era normal sentir um pouco de dor durante a aplicação de uma
Marca, mas o que viu nos olhos de Adele — aquilo era agonia.
Aloysius se levantou de súbito, derrubando a cadeira na qual estivera
sentado.
— Pare! — gritou, mas era tarde demais. O símbolo estava completo.
O Irmão do Silêncio recuou, encarando-o. Havia sangue na estela. Adele
choramingava, atenta à recomendação do avô para que não demonstrasse
fraqueza, mas então a pele ensanguentada e dilacerada começou a se sepa-
rar dos ossos, escurecendo e queimando sob a Marca como se fosse fogo, e
ela não conseguiu se conter: jogou a cabeça para trás e gritou...
Londres, 1873
— Will? — Charlotte Fairchild abriu suavemente a porta da sala de treinamentos do Instituto. — Will, você está aí?
Um resmungo abafado foi a única resposta. A porta se abriu por in-
teiro, revelando o recinto amplo e de teto alto do outro lado. A própria
Charlotte crescera treinando ali, e conhecia cada deformação nos tacos
do chão, o antigo alvo pintado na parede norte, as janelas quadradas, tão
antigas que eram mais espessas na base do que no topo. No centro do cômodo encontrava-se Will Herondale, com uma faca empunhada na mão
direita.
Ele virou a cabeça para olhar Charlotte, e mais uma vez ela pensou na
criança estranha que ele era. Apesar de, aos 12 anos, mal ser criança ainda.
Era um menino muito bonito, com cabelos escuros espessos que se enro-
lavam ligeiramente onde tocavam o colarinho — agora molhados de suor
e grudados na testa. Quando chegou ao Instituto, tinha a pele bronzeada
pelo ar do campo e pelo sol, mas seis meses na cidade extinguiram a cor,
fazendo com que o rubor nas maçãs do rosto se destacasse ainda mais. Tinha olhos de um raro azul luminoso. Seria um homem bonito um dia, se
conseguisse fazer alguma coisa a respeito da carranca que constantemente
distorcia suas feições.
— O que foi, Charlotte? — perguntou ele, irritado.
Will ainda falava com um singelo sotaque galês, um arrastar de vogais
que seria charmoso se o tom não fosse tão amargo. Ele passou a manga na
testa enquanto Charlotte entrava hesitante, parando em seguida.
— Estou te procurando há horas — disse ela, com um toque de aspereza, apesar de não surtir muito efeito em Will. Pouca coisa o afetava quando
ele estava de mau humor. — Não se lembra do que avisei ontem, de que
estaríamos recebendo um novo membro no Instituto hoje?
— Ah, me lembrei. — Will atirou a faca. Esta se fincou ao largo do círculo do alvo, o que piorou a careta do menino. — Apenas não me importo.
O menino atrás de Charlotte emitiu um ruído abafado. Quase uma risada, ela pensou, mas ele certamente não podia estar rindo, não é? Charlotte fora alertada para o fato de que o menino vindo do Instituto de Xangai não estava bem, mas mesmo assim se espantou quando ele saltou da carruagem, pálido e cambaleante como juncos ao vento, os escuros cabelos cacheados com mechas pratas, como se ele fosse um homem de 80 anos, e não um menino de 12. Tinha grandes olhos cinza, estranhamente lindos, porém assustadores em um rosto tão delicado.
— Will, você terá de ser educado — disse ela, e puxou o menino de
trás de si, convidando-o a entrar na sala. — Não se preocupe com Will; ele
só está mal-humorado. Will Herondale, apresento-lhe James Carstairs, do
Instituto de Xangai.
— Jem. Todos me chamam de Jem — disse o menino. E deu mais um
passo, assimilando Will com uma curiosidade amistosa. Falava sem qual-
quer sombra de sotaque, para surpresa de Charlotte, mas seu pai era, fora,
britânico. — Você também pode.
— Bem, se todos o chamam assim, não é nenhuma gentileza comigo,
certo? — O tom de Will era ácido; para alguém tão jovem, ele era surpreendentemente capaz de ser desagradável. — Acho que descobrirá, James
Carstairs, que se ficar quieto e me deixar em paz, será bom para nós dois.
Charlotte suspirou silenciosamente. Torcera tanto para que este me-
nino, da idade de Will, servisse como ferramenta para desarmá-lo de sua
raiva e amargura, mas aparentemente ele falou a verdade quando disse
que não ligava para a presença de outro menino Caçador de Sombras no
Instituto. Não queria amigos, nem sentia falta deles. Ela olhou para Jem,
esperando vê-lo piscar surpreso ou magoado, mas ele apenas esboçou um
sorriso, como se Will fosse um filhote de gato que tentara mordê-lo.
— Não treino desde que fui embora de Xangai — falou. — Seria bom
ter um parceiro, alguém com quem lutar.
— Para mim, também — respondeu Will. — Mas preciso de alguém
capaz de me acompanhar, não de uma criatura que parece com o pé na
cova. Mas suponho que você sirva para treinamento de tiro ao alvo.
Por saber o que sabia sobre James Carstairs — algo que não compartilhara com Will —, Charlotte foi dominada pelo horror da declaração.
Com o pé na cova, oh, céus. O que seu pai havia dito? Que Jem dependia de
um medicamento para viver, uma espécie de remédio que prolongaria sua
vida, mas não o salvaria. Ah, Will.
Fez um gesto como se fosse se colocar entre os dois, como se pudesse
proteger Jem da crueldade de Will, que neste momento estava mais afiada
do que ele próprio podia imaginar — mas depois se deteve.
Jem sequer mudara de expressão.
— Se com “pé na cova” você quer dizer morrendo, sim, é isso mesmo
— informou. — Tenho mais ou menos dois anos de vida, três, se tiver sorte, ou pelo menos é o que me dizem.
Nem Will conseguiu conter o choque; ficou com as bochechas ruborizadas.
— Eu...
Mas Jem já estava caminhando em direção ao alvo pintado na parede;
ao alcançá-lo, arrancou a faca da madeira. Depois, virou-se e caminhou
diretamente para Will. Por mais frágil que fosse, tinha a mesma altura do
outro, e, apenas quando estavam muito próximos, seus olhares se fixaram
um no outro.
— Pode me utilizar como alvo, se desejar — disse Jem, com a casua-
lidade de quem conversava sobre o tempo. — Acho que tenho pouco a
temer, pois você não tem muita pontaria. — Jem deu meia-volta, mirou e
atirou. A faca foi direto no centro do alvo, tremendo ligeiramente. — Ou
— prosseguiu, olhando novamente para Will — pode permitir que eu ensine você. Pois sou muito bom de mira.
Charlotte observava. Havia seis meses via Will afastar todos que tentavam
se aproximar — tutores; o pai e Henry, o noivo dela; ambos os irmãos Li-
ghtwood — com uma combinação de ódio e crueldade absurdamente precisa.
Não fosse pelo fato de que ela era a única pessoa que já o vira chorar, supunha
que também já teria desistido, há tempos, de acreditar que ele algum dia seria
bom para alguém. No entanto, cá estava Will, olhando para Jem Carstairs, um
menino de aparência tão frágil que parecia feito de vidro, a rigidez da expressão se dissolvendo lentamente em uma incerteza experimental.
— Você não está morrendo de verdade — falou, com um tom muito
estranho na voz —, está?
Jem assentiu.
— É o que dizem.
— Sinto muito — respondeu Will.
— Não — retrucou Jem baixinho. Abriu o casaco e tirou uma faca do
cinto. — Não seja tão clichê assim. Não diga que sente muito. Diga que vai
treinar comigo.
Ele estendeu a faca para Will, segurando-a pela lâmina. Charlotte prendeu a respiração, com medo de se mexer. Tinha a sensação de estar testemunhando algo muito importante, apesar de não conseguir dizer o quê.
Will esticou o braço e pegou a faca, sem tirar os olhos do rosto de Jem.
Seus dedos tocaram os do outro menino enquanto pegava a arma. Foi a
primeira vez, pensou Charlotte, que ela o viu tocar outra pessoa por vontade própria.
— Vou treinar com você — disse ele."
— informou. — Tenho mais ou menos dois anos de vida, três, se tiver sorte, ou pelo menos é o que me dizem.
Nem Will conseguiu conter o choque; ficou com as bochechas ruborizadas.
— Eu...
Mas Jem já estava caminhando em direção ao alvo pintado na parede;
ao alcançá-lo, arrancou a faca da madeira. Depois, virou-se e caminhou
diretamente para Will. Por mais frágil que fosse, tinha a mesma altura do
outro, e, apenas quando estavam muito próximos, seus olhares se fixaram
um no outro.
— Pode me utilizar como alvo, se desejar — disse Jem, com a casua-
lidade de quem conversava sobre o tempo. — Acho que tenho pouco a
temer, pois você não tem muita pontaria. — Jem deu meia-volta, mirou e
atirou. A faca foi direto no centro do alvo, tremendo ligeiramente. — Ou
— prosseguiu, olhando novamente para Will — pode permitir que eu ensine você. Pois sou muito bom de mira.
Charlotte observava. Havia seis meses via Will afastar todos que tentavam
se aproximar — tutores; o pai e Henry, o noivo dela; ambos os irmãos Li-
ghtwood — com uma combinação de ódio e crueldade absurdamente precisa.
Não fosse pelo fato de que ela era a única pessoa que já o vira chorar, supunha
que também já teria desistido, há tempos, de acreditar que ele algum dia seria
bom para alguém. No entanto, cá estava Will, olhando para Jem Carstairs, um
menino de aparência tão frágil que parecia feito de vidro, a rigidez da expressão se dissolvendo lentamente em uma incerteza experimental.
— Você não está morrendo de verdade — falou, com um tom muito
estranho na voz —, está?
Jem assentiu.
— É o que dizem.
— Sinto muito — respondeu Will.
— Não — retrucou Jem baixinho. Abriu o casaco e tirou uma faca do
cinto. — Não seja tão clichê assim. Não diga que sente muito. Diga que vai
treinar comigo.
Ele estendeu a faca para Will, segurando-a pela lâmina. Charlotte prendeu a respiração, com medo de se mexer. Tinha a sensação de estar testemunhando algo muito importante, apesar de não conseguir dizer o quê.
Will esticou o braço e pegou a faca, sem tirar os olhos do rosto de Jem.
Seus dedos tocaram os do outro menino enquanto pegava a arma. Foi a
primeira vez, pensou Charlotte, que ela o viu tocar outra pessoa por vontade própria.
— Vou treinar com você — disse ele."

















